Powered By Blogger

O MATADOR.

Tem certas coisas que, mesmo com o passar do tempo, a gente não esquece, principalmente na nossa infância quando tudo é novo e coisas simples parecem uma aventura. Lembro-me de um sábado de inverno em que eu, guri inexperiente, ajudei o “Vô Chico” a matar um porco, nos fundos da casa onde eu morava.
Era usual, no interior, que as famílias criassem um porco ou algumas galinhas para consumo próprio, e a minha família sempre teve este costume: o terreno era grande e os vizinhos não se incomodavam com os cheiros que esta criação produzia.
Antes deste sábado, matar um porco era rotineiro: quem matava era meu pai; como descendente de alemães, ele tinha preferência pela carne de porco e desde guri era responsável pela criação de porcos. Do meu pai, posso dizer era que o que podemos chamar de matador profissional: a faca na mão dele encontrava o caminho do coração do animal sem dificuldades; ele matava de olhos fechados e o porco não sentia que estava morrendo. Sempre me chamou a atenção o fato que porcos mortos pelo meu pai não “gritavam”, morriam silenciosamente.
Mas neste sábado, em que eu iniciaria minha vida de matador de porco, as coisas não saíram bem como planejado. No clarear do dia esquentamos água no tacho e arrumamos umas tabuas para fazer de mesa em cima de dois cavaletes. Eu e o Vô Chico fomos ao chiqueiro e eu peguei o bicho pelas orelhas e o avô pelo rabo e me ensinou que, erguendo a parte de trás, o porco perde a força. Tudo feito, o porco foi colocado na mesa para ser faqueado, meu avô me deu faca e mandou-me matar o porco. Não tive coragem e falei:
-
Mata o senhor, eu tenho pena do bicho.

Ele deu uma risada e falou:
- Deixa comigo, este porco morre já.
Eu fiquei segurando o porco, o avô enfiou a faca e segurou a perna do porco para ele não se debater; o animal gritava sem parar até que meu avô resolver conferir se tinha acertado o coração do porco e colocou o dedo no furo deixado pela faca; para nosso espanto o coração estava intacto e, sem pensar meu avo pegou a faca e novamente enfiou no peito e o animal continuou gritando, e nada de morrer. Eu não marquei o tempo, mas aquela cena não terminava mais, o porco gritando e eu segurando o porco.
Quando ele parou de gritar, eu inocentemente larguei as pernas do porco, e o animal levantou-se e fugiu para a horta da minha mãe; foi um estrago: todos corriam atrás do porco e, por ser mais jovem, consegui agarrar o porco pela pata traseira. Eu não sabia que era a parte mais forte do porco, os coices dele erram curtos e rápidos, minhas mãos iam para frente e para trás, mas não larguei até que meu avô chegou e ergueu o animal pelo rabo e o levamos até a mesa, para terminar o serviço.
Para ter certeza, meu avô enfiou a faca novamente, mexeu para todos os lados e afirmou:
- De um jeito ou outro, ele morre.
O coitado do porco foi se entregado, o sangue foi terminando e ele entregando as forças, até que ficou bem quietinho, e o avô Chico me disse:
- Não te falei que ele morria?
Mandou pegar a água fervendo para raspar o pelo do porco; fui até o tacho, peguei uma leiteira cheia de água fervendo e larguei no lombo do animal e, para minha surpresa, o porco se mexeu, se encolhendo todo, deu o ultimo suspiro e morreu.

Ainda tive que agüentar meu avô dizendo que o porco não morria porque eu tava com pena do animal.

Sandro

Nenhum comentário:

Postar um comentário